OpenBIM: o que é, como funciona e por que não tem relação com software gratuito

Um guia para entender o que é a abordagem openBIM, por que ela é fundamental para a colaboração na construção civil e como se diferencia da ideia de “BIM gratuito”.


Por que openBIM ainda é confundido com software gratuito

No setor de Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC) do Brasil, a transição para a metodologia BIM (Building Information Modeling) já é uma realidade consolidada. No entanto, à medida que o mercado amadurece, novos termos e conceitos surgem, e com eles, algumas confusões. Talvez a mais comum e prejudicial para quem atua com BIM seja a associação quase automática do termo openBIM com a ideia de software gratuito.

Reduzir o openBIM a uma questão de custo é ignorar seu propósito fundamental: criar um ecossistema de trabalho verdadeiramente integrado, flexível e à prova de futuro. O objetivo deste artigo é, portanto, desmistificar essa ideia, explicando de forma clara e direta o que o openBIM realmente significa e qual seu impacto para projetos de qualquer escala.

Afinal, o que é openBIM?

Antes de tudo, é preciso entender que openBIM não é um software, uma marca ou um produto. OpenBIM é uma abordagem, uma filosofia de trabalho colaborativo para o projeto, a construção e a operação de edificações. Seu principal objetivo é garantir a interoperabilidade, ou seja, a capacidade de diferentes softwares, desenvolvidos por diferentes fabricantes, “conversarem” entre si de forma fluida e sem perda de informações.

Para facilitar a compreensão, podemos compará-lo com algo que usamos todos os dias: o e-mail. Você pode usar o Gmail, enquanto seu colega usa o Outlook e outro, o e-mail da Apple. Mesmo sendo aplicativos de empresas diferentes, todos conseguem trocar mensagens sem problemas. Isso acontece porque eles utilizam protocolos padronizados e abertos (como IMAP, POP3 e SMTP) que servem como uma linguagem comum.

O openBIM funciona de maneira semelhante para o setor AEC. Ele se baseia em padrões abertos que funcionam como essa linguagem comum, permitindo que um projeto de arquitetura feito no ArchiCAD seja totalmente compatível com um projeto estrutural feito no TQS ou Eberick, e com um planejamento 4D feito em outro software especializado.

Os pilares do openBIM: padrões abertos

A interoperabilidade do openBIM só é possível graças a um conjunto de padrões internacionais, neutros e abertos, mantidos pela buildingSMART International, uma organização sem fins lucrativos que lidera o desenvolvimento desses formatos. Os três pilares mais importantes são:

Fluxo openBIM com IDS, IFC e BCF estruturando requisitos, dados, validação e comunicação entre plataformas BIM
Diagrama openBIM com IDS, IFC e BCF. Tradução livre de conteúdo original da buildingSMART: https://www.buildingsmart.es/bim/openbim/bcf/

IFC (Industry Foundation Classes): o tradutor universal

O IFC é, sem dúvida, o padrão mais conhecido e fundamental do openBIM. Ele é um formato de arquivo projetado para descrever informações de edificações e de construção civil. A melhor maneira de entendê-lo é compará-lo a um “PDF do mundo BIM”. Assim como um PDF mantém a formatação e o conteúdo de um documento independentemente do software ou sistema operacional em que é aberto, um arquivo IFC mantém a geometria e, mais importante, os dados (como tipo de parede, resistência do concreto, custo do material) de um modelo BIM quando ele é transferido entre diferentes softwares.

BCF (BIM Collaboration Format): a comunicação estruturada

Se o IFC cuida dos dados do modelo, o BCF cuida da comunicação sobre esses dados. O BCF é um formato de arquivo que permite que os membros da equipe troquem comentários, identifiquem problemas (clashes) e comuniquem soluções diretamente atreladas aos elementos do modelo 3D. Na prática, ele substitui o fluxo caótico de e-mails, planilhas de Excel e capturas de tela, criando um registro claro, rastreável e visual de todas as decisões tomadas durante a fase de compatibilização.

IDS (Information Delivery Specification): o contrato de dados

O IDS é um padrão mais recente, mas de importância crescente. Ele funciona como um “contrato de dados”, permitindo que o cliente ou o gestor do projeto especifique exatamente quais informações devem ser entregues em cada etapa. Com o IDS, é possível automatizar a verificação do modelo, garantindo que os requisitos de informação foram cumpridos. Por exemplo, é possível checar automaticamente se todas as portas possuem a informação de resistência ao fogo preenchida corretamente, garantindo a conformidade com as normas.

openBIM vs. Closed BIM: uma questão de fluxo

Para entender o valor do openBIM, é útil compará-lo com a abordagem alternativa, conhecida como closed BIM (ou BIM proprietário). No closed BIM, a colaboração é otimizada para ocorrer dentro do ecossistema de softwares de um único fabricante, como o Revit. Embora isso possa oferecer um fluxo de trabalho muito integrado e eficiente se toda a equipe usar as mesmas ferramentas, cria uma forte dependência de um único fornecedor e limita a flexibilidade.

A tabela abaixo resume as principais diferenças entre as duas abordagens:

CaracterísticaopenBIM (Fluxo Aberto)Closed BIM (Fluxo Fechado)
FilosofiaColaboração baseada em padrões abertos e neutros.Colaboração otimizada dentro do ecossistema de um único fornecedor.
Formato de TrocaPrincipalmente IFC, BCF, IDS.Formatos nativos e proprietários do software (ex: .RVT, .PLN).
FlexibilidadeAlta. Permite que cada disciplina use o melhor software para sua especialidade.Baixa. Incentiva ou exige que todos os envolvidos usem o mesmo software ou família de softwares.
DependênciaBaixa dependência de fornecedores. Foco na posse dos dados.Alta dependência de um único fornecedor de software.
LongevidadeAlta. Formatos abertos garantem acesso aos dados do projeto por décadas.Incerta. Depende da continuidade do software e do suporte ao formato pelo fabricante.
InovaçãoFomenta um mercado competitivo e diversificado de ferramentas especializadas.A inovação é controlada e ditada pelo fornecedor principal.

É crucial entender que a escolha entre openBIM e closed BIM não é uma questão de qualidade. Um projeto pode ser excelente ou ruim em qualquer um dos fluxos. A decisão depende da estratégia do projeto, do perfil da equipe e dos objetivos de longo prazo do cliente.

Então, de onde vem a ideia de “software gratuito”?

Agora podemos responder à pergunta inicial. A associação entre openBIM e software gratuito surge porque a filosofia de padrões abertos fomenta um ambiente de inovação e competição saudável. Ao criar uma “linguagem universal” (o IFC), o openBIM permite que desenvolvedores de todos os tamanhos, incluindo comunidades de código aberto, criem ferramentas que podem competir no mercado.

Softwares como BlenderBIM, FreeCAD e outros são consequências positivas dessa filosofia aberta. Eles demonstram que é possível criar soluções poderosas fora do domínio dos grandes fabricantes. No entanto, o openBIM é utilizado com a mesma eficácia por softwares pagos líderes de mercado, como Revit, ArchiCAD, TQS, Eberick, Navisworks e muitos outros. A verdadeira questão não é o custo da ferramenta, mas sua capacidade de se comunicar via padrões abertos.

OpenBIM é liberdade de escolha

Em resumo, openBIM é sobre ter a liberdade de escolher as melhores e mais adequadas ferramentas para cada disciplina e cada etapa de um projeto, com a segurança de que a informação fluirá de forma íntegra e consistente entre todos os envolvidos. É uma abordagem estratégica que garante a posse dos dados pelo cliente, promove a longevidade dos ativos digitais e abre portas para um mercado de tecnologia mais diverso e inovador.

Adotar uma abordagem openBIM é pensar no ciclo de vida completo da edificação, desde o projeto até a operação e manutenção, garantindo que as informações geradas hoje permaneçam acessíveis e úteis por décadas.

Na prática, isso significa permitir que diferentes equipes utilizem as ferramentas mais adequadas para cada tipo de projeto, sem comprometer a troca de informações. Na Nós Arquitetura e Engenharia, por exemplo, os projetos de edificações são desenvolvidos em Revit, o que permite identificar interferências entre disciplinas em tempo real. Ao mesmo tempo, esses modelos são exportados em IFC para que a equipe de infraestrutura urbana trabalhe em seu próprio software (Civil 3D) e o mesmo ocorre no sentido inverso, garantindo compatibilização e continuidade das informações entre as diferentes frentes de projeto.

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